Geração conectada, coração desconectado

Moiseis Oliveira da Paixão*
Criança presa na tela,
Rolando vídeo sem fim,
O mundo passa por ela,
Mas tudo é sempre assim,
Sorriso vira aquarela,
Tristeza mora no jardim.
No jogo busca vitória,
Na rede busca atenção,
Esquece a própria história,
Vive em outra dimensão,
Troca abraço por memória,
Troca afeto por ilusão.
Olhos fixos na luz fria,
Coração pede calor,
Perde o brilho do dia,
Se afasta do amor,
A mente fica vazia,
Cheia de medo e dor.
Palavras curtas, secas,
Irritação sem razão,
Respostas sempre ocas,
Explode o coração,
Em crises tão loucas,
Fere a própria emoção.
Consultório vira rotina,
Remédio sobre a mesa,
A infância se inclina,
Perde sua leveza,
A alma pequena definha,
Sem riso, sem firmeza.
Na escola falta atenção,
Caderno quase em branco,
Difícil é a concentração,
O sonho parece franco,
Nota baixa, frustração,
Silêncio no mesmo banco.
O professor chama à frente,
Mas a mente está distante,
Viaja em mundo diferente,
Virtual e constante,
Esquece o presente,
Num ciclo preocupante.
Pais observam calados,
Sem saber como agir,
Avós ficam assustados,
Com medo do porvir,
Veem filhos cansados,
Sem forças para sorrir.
A mesa já não reúne,
Cada qual com seu visor,
O diálogo se pune,
Falta escuta, falta amor,
A família se desune,
Em silêncio opressor.
Brincadeiras no quintal,
Viraram recordação,
Corre-corre natural,
Hoje é só conexão,
O toque virou digital,
Fria comunicação.
Mas ainda há esperança,
Se houver orientação,
Limite firme na balança,
Presença e atenção,
Resgatar a confiança,
Cultivar o coração.
Que a tela seja ferramenta,
E não prisão sem saída,
Que o afeto seja a meta,
E a família, abrigo e vida,
E a infância floresça completa,
Livre, leve e protegida.
*Moiseis Oliveira da Paixão é escritor, jornalista e poeta




