
Com mais de uma década de atuação na medicina, hoje presencio, com preocupação, a concretização de alertas feitos ainda antes da minha formação.
Entre 2008 e 2009, professores já chamavam atenção para o crescimento desordenado dos cursos de Medicina no Brasil. O alerta era claro: sem planejamento, regulação e vigilância, a profissão médica seria progressivamente
engolida por um sistema que desvaloriza o trabalho, precariza vínculos e transforma o médico em mão de obra facilmente substituível.
Formei-me em 2013 e, naquele momento, o cenário em Rondônia era distinto. Havia possibilidade de escolha: melhores plantões, serviços, chefias e remuneração. Era possível viver da medicina com dignidade. Hoje, Rondônia possui cerca de 1.751.950 habitantes e aproximadamente 4.449 médicos registrados, o que corresponde a 2,54 médicos por mil habitantes, com forte concentração na capital e saturação progressiva do mercado. Atualmente, o estado conta com ao menos cinco instituições formadoras em Medicina, com ingresso anual mínimo estimado entre 268 e 318 novas vagas, sem crescimento proporcional de oportunidades de trabalho.
A desvalorização torna-se evidente ao se comparar os valores dos plantões. Em 2013, um plantão de pronto-socorro pagava cerca de R$ 1.500,00. Em 2025, esse valor varia entre R$ 400,00 e R$ 800,00, representando uma queda nominal de até 73%, sem considerar a inflação acumulada.
A pejotização irrestrita, a ausência de vínculos formais e os longos prazos de pagamento agravam ainda mais a vulnerabilidade do profissional médico. Diante desse cenário, resta ao médico repensar caminhos, buscar novas frentes de atuação e investir em alternativas que não dependam exclusivamente de estruturas estatais ou de modelos já esgotados.
A reinvenção profissional deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade. Esta reflexão não se apresenta como uma queixa individual, mas como um alerta coletivo sobre o futuro da medicina que estamos construindo — ou permitindo que seja construído.




