
Há frases que não são apenas grosseiras. São reveladoras. Quando o deputado Paulo Francisco Muniz Bilynskyj, conhecido como Paulo Bilynskyj, comparou Santa Catarina ao Maranhão chamando o estado nordestino de uma “b*sta”, ele não atacou apenas uma unidade da federação. Ele revelou desprezo, ignorância histórica e total despreparo para ocupar uma cadeira no Parlamento brasileiro.
O Brasil é uma bênção justamente porque é diverso. Porque não nasceu homogêneo, nem justo, nem equilibrado — mas plural. Se alguns estados são mais ricos que outros, isso não é virtude moral de seus povos, tampouco defeito genético, cultural ou racial de quem vive nas regiões mais pobres. É resultado direto da história, da forma como este país foi colonizado, explorado e estruturado ao longo de mais de cinco séculos.
O Norte e o Nordeste receberam, em sua formação, populações que fugiam da fome, da seca, de guerras, de epidemias e do abandono. Europeus pobres, africanos escravizados, povos originários violentamente expropriados. Foram explorados por grandes senhores de engenho, submetidos a um modelo econômico que concentrou terra, poder e riqueza nas mãos de poucos. Esse padrão não apenas nasceu ali — ele se perpetuou por mais de 500 anos.
O Sul do Brasil teve outra trajetória. Recebeu fluxos migratórios distintos, muitos deles compostos por europeus que fugiam de perseguições políticas, como italianos e alemães escapando do fascismo e do nazismo. Vieram, em grande parte, com incentivos estatais, acesso à terra, políticas de integração e oportunidades que jamais foram oferecidas com a mesma intensidade a outras regiões.
Nada disso faz um povo superior a outro. Apenas explica desigualdades.
Por isso, o discurso de Paulo Bilynskyj não deveria indignar apenas “a esquerda” — deveria chocar direitas e esquerdas, conservadores e progressistas, liberais e sociais-democratas. Porque o que está em jogo não é ideologia, mas civilidade. Debate político se faz no campo das ideias, da governança, das políticas públicas. Não no terreno lodoso do ódio, da humilhação e da estigmatização regional.
Faço questão de registrar: nos últimos anos, optei por votar majoritariamente em partidos de centro e de direita. Ainda assim, não posso — e não vou — passar pano para esse tipo de comportamento. Defender valores semelhantes não autoriza apoio incondicional a quem se mostra incapaz de compreender o país que representa.
Bilynskyj tenta se esconder atrás da Constituição, alegando estar apenas exercendo sua liberdade de expressão. Eu também defendo a liberdade de expressão de forma ampla. Mas liberdade não é salvo-conduto para a irresponsabilidade. Existem limites civilizatórios. Um deles é o respeito ao federalismo. Outro é a proibição moral — e democrática — de discursos que incitam ódio, segregação, violência simbólica ou antagonismo entre regiões do mesmo país.
Não se pode jogar brasileiros contra brasileiros com base em PIB, sotaque, origem étnica ou herança cultural. Isso não é opinião: é veneno.
Espero, sinceramente, que o Conselho de Ética da Câmara puna esse deputado com rigor — ao menos seis meses de afastamento, sem remuneração, como freio pedagógico a esse tipo de retórica rasteira. E, se insistir nesse comportamento, que responda com cassação e perda de direitos políticos. O Parlamento não é lugar para quem confunde ignorância com coragem e preconceito com opinião.
O Brasil é multiétnico, plural, contraditório — e bonito justamente por isso. Quem não entende isso não está à altura do cargo que ocupa.
Daniel Oliveira da Paixão é jornalista e colaborador da Tribuna Popular desde 1987




