Lúcio Albuquerque

O RIBEIRINHO E AS ENCHENTES (III)
Olhando as estrelas e prevendo a cheia
Em 3 páginas de seu livro “Na beira do barranco” o humaitaense de Uruapiara Raimundo Neves de Almeida (*1) usa o espaço para contar narrativas de caboclos, como ele, durante uma noite longa enquanto velavam um amigo que falecera.
Eles estavam num lugar chamado “Esperança”, e na rodada encontravam-se vários dos mais entendidos em vivência de florestas e lagos. E como era tempo de enchente, o assunto era de histórias e lembranças da subida do rio.
“Seu Sebastião: Contou que observara, na noite de 1 de janeiro, que as Sete-Estrelas (*2) estavam bem “altas no céu, na altura do meio-dia e isso é sinal de água em abundância”.
O “seu” Galdino narrou, citou observou: “As “canoas” das abacabeiras (*3) só caem com a boca para cima”, o que é sinal de aguaceiro.
Experiente dos sinais da natureza, “seu” Rogério disse que o gavião caoré cantou na lua cheia e quando isso acontece “é sinal de enchente grande”.
A troca de experiências e conhecimentos, ouvidas no velório, numa das comunidades do lago Uruapiara, permitiu ao autor Raimundo Neves de Araújo uma reflexão importante, a de que “os caboclos, na sua tranquilidade e simplicidade, observam e compreendem bem os fenômenos da natureza”, texto que ele encerra o novo conhecimento sobre as enchentes.
Mas o livro tem muitas outras histórias e estórias, todas contadas por quem viveu parte de sua vida ouvindo narrativas desses que conhecem a selva mais do que muita gente que fala sobre o assunto.
Humaitá e o lago Uruapiara, temas constantes da obra de Raimundo Neves
Assinalada, a “canoa” da bacabeira, se cair de “boca” para cima tem enchente
A marca escura na imensa samaúma é o nível da cheia do ano anterior




